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domingo, 26 de junho de 2016

PROSSEGUIMENTO NA LUTA


Filhos da alma:

Que o Senhor nos abençoe! A criatura terrestre destes dias, guindada pela ciência e pela tecnologia a patamares elevados do conhecimento, ainda estorcega nas aflições do seu processo evolutivo. As conquistas relevantes logradas até este momento não conseguiram equacionar o problema da criatura em si mesma.

Avolumam-se os conflitos entre as nações apesar do esforço de abnegados missionários na área da política e da diplomacia internacionais. Cresce o conflito entre os grupos sociais, nada obstante o empenho de dedicados seareiros do Bem, tornando-se pontes para o entendimento entre os grupos litigantes.

O espectro da fome vigia as nações tecnológica e economicamente menos aquinhoadas, ameaçando de extermínio larga fatia da população terrestre, não se considerando os milhões de indivíduos que, sobrevivendo à calamidade, permanecerão com sequelas inamovíveis. A violência urbana, por todos conhecida, atinge níveis quase insuportáveis.

E apesar do sacrifício de legisladores abençoados pelo Mundo Espiritual Superior, cada dia faz-se mais agressiva e hedionda, sem arrolarmos os prejuízos dos factores pretéritos que a desencadearam através dos impositivos restritivos à liberdade individual e das massas. Não podemos negar que este é o grande momento de transição do Mundo de Provas e de Expiações para o Mundo de Regeneração.


Trava-se em todos os segmentos da sociedade, nos mais diferenciados níveis do comportamento físico, mental e emocional, a grande batalha. O Espiritismo veio para estes momentos, oferecendo os nobres instrumentos do amor, da concórdia, do perdão, da compaixão. Iluminou o conhecimento terrestre com as directrizes próprias para o encaminhamento seguro na direcção da verdade.

Ensejou à filosofia uma visão mais equânime e optimista a respeito da vida na Terra. Facultou à religião o desalgemar das criaturas humanas, arrebentando os elos rigorosos dos seus dogmas e da sua intolerância, a fim de que viceje a fraternidade que deve viger entre todas criaturas. Cabe a todos nós, aos espíritas encarnados e aos Espíritos-espíritas, a tarefa de ampliar as balizas do Reino de Deus entre as criaturas da Terra. Divulgar o Espiritismo por todos os meios e modos dignos ao alcance, é tarefa prioritária. A dor é colossal neste momento no mundo terrestre... E o Consolador distende-lhe as mãos generosas para enxugar as lágrimas e os suores de todos aqueles que sofrem, mas sobretudo, para eliminar as causas do sofrimento, erradicando-as por definitivo... E essa tarefa cabe à educação.

Criando nas mentes novas o pensamento perfeitamente consentâneo com o Evangelho de Nosso Senhor Jesus-Cristo, retirando as anfractuosidades teológicas e dogmáticas com que o revestiram, produzindo arestas lamentáveis geradoras de atritos e de perturbações. Não é possível mais postergar o momento da iluminação de consciência. E o sofrimento que decorre da abnegação e do sacrifício que nos deve constituir estímulos são os meios únicos e eficazes para que seja demonstrada a excelência dos paradigmas e dos postulados da Codificação Espírita. As criaturas humanas estão decepcionadas com as propostas feitas pelo utopismo que governa algumas mentes desavisadas.

Mulheres e homens honestos encontram-se sem rumo, cansados de palavras ardentes e de propostas entusiastas, mas vazias de conteúdo e de significação. O Espiritismo, meus filhos, é a resposta do Céu aos apelos mudos ou não formulados mentalmente sequer, de todas as criaturas terrestres. Estais honrados com a bênção do conhecimento libertador. Estais investidos da tarefa de ressuscitar a palavra da Boa Nova, amortalhada pela indiferença ou sob o utilitarismo apressado dos que exploram as massas inconscientes, conduzindo-as para o seu sítio de exploração e de ignorância.

Vós recebestes o chamado do Senhor para preparar a terra, a fim de que a ensementação da verdade faça-se de imediato. Unidos, amando-vos uns aos outros, mesmo quando discrepando em determinadas colocações de como fazer ou quando realizar, levai adiante o propósito de servir ao Mestre antes que o interesse de cada qual servir-se a si mesmo. Já não há tempo para adiarmos a proposta de renovação do planeta. Conhecemos as vossas dificuldades pessoais, sabemos das vossas lutas íntimas e identificamos os desafios que se vos apresentam amiúde, testando-vos as resistências morais. Não desfaleçais! Os homens e as mulheres, a serviço do bem com Jesus, são as suas cartas vivas à Humanidade, a fim de que todas as criaturas leiam nas suas condutas o conteúdo restaurado do Evangelho, as colocações seguras dos Imortais e catalogadas pelo insigne mensageiro Allan Kardec.

Uma nova mentalidade, uma mentalidade nova vem surgindo nos arraiais do Movimento Espírita. Cada lutador compreende a necessidade de mais integrar-se na actividade doutrinária, a fim de que, com mais rapidez se processe a Era de Renovação Social e Moral preconizada pelo preclaro mestre de Lyon. Não vos faltam os instrumentos próprios para o êxito, a fim de que areis as terras do coração humano, para que desbraveis as províncias das almas terrestres, porfiando nessa acção, sem temerdes, sem deterdes o passo e sem retrocederdes. Estais acompanhando Jesus que, à frente, continua dizendo: Vinde pois a mim, vós todos que estais cansados e aflitos, conduzindo o vosso fardo e sob as vossas aflições, comigo esse fardo é leve e essas aflições são consoladas, porque eu vos ofereço a vida plena de paz e de felicidade.

Avancemos pois, filhos da alma! Corações em festa, embora as lágrimas nos olhos; passo firme, inobstante os joelhos desconjuntados, Espírito erecto, não obstante o peso das necessidades. O Senhor, que nos ama, é nossa força e garantia de êxito. Nunca vos faltarão os recursos próprios, que vindes recebendo e que recebereis até o momento final e depois da jornada cumprida, para que desempenheis a missão que vos diz respeito hoje e quando a tivestes em épocas transactas e falhastes... Já não há tempo para enganos. A decisão tomada precede a acção da vitória, e com o amor no sentimento, o conhecimento na mente, tereis a sabedoria de permanecer fiéis ate o fim Que o Senhor de Bênçãos vos abençoe, amados filhos da alma. São os votos dos vossos amigos espirituais que aqui estão convosco e do servidor humílimo e paternal de sempre, Bezerra



(Mensagem psicofónica recebida pelo médium Divaldo Pereira Franco, no encerramento da Reunião do Conselho Federativo Nacional, em 21 de Novembro de 2004, na Federação Espírita Brasileira, em Brasília, DF.) Nota: Texto revisado pelo Autor espiritual.

Que optemos pela compaixão

Que nos resolvamos pela simpleza de sentimentos.
Que preservemos o estatuto da paz, trabalhando os metais das nossas existências passadas com as ferramentas sublimes do amor.
Desejastes que o Mundo espiritual vos desvelasse os painéis da Imortalidade, suplicastes a glória de servir, anelastes por identificar Jesus no próximo crucificado, crucificastes-vos no madeiro da compaixão.
Mantende fidelidade, porfiando na convicção de que isto também passa; passam os sorrisos que se convertem em esgares e os tormentos que se transformam em alegrias.
Viajai no rumo do Reino dos Céus que está dentro de vós e desfraldai o ideal de mais amor, porque esta é a única solução para os difíceis desafios existenciais.
Não mais amanhã: Eia, agora! - diz a palavra do Senhor.
Agora, é o vosso santo momento de iluminação.
Não postergueis a oportunidade ímpar que tão cedo não se repetirá.
Não foi o acaso que vos reuniu aqui nesta noite, neste especial momento.
Leis soberanas de atracção trouxeram-vos para que estivésseis connosco no banquete comemorativo da Era Nova, em que o deserto na primavera de esperança cobre-se de flores e o charco transforma-se em fonte generosa de bênçãos.
Exultai!
Agradecendo a Deus a glória de haverdes ouvido e atendido ao chamado.
Logo mais, quando o anjo discreto da desencarnação despir-vos e retornardes ao Grande Lar, connosco, entoareis a canção imortal – “Ave Cristo, aqueles que Te amamos, Te homenageamos e Te saudamos!”
Que o Senhor de bênçãos vos abençoe, almas queridas, e que, por vossa vez, abençoeis os filhos do Calvário que encontrareis pelo caminho.
São os votos da servidora dedicada e amiga,

Joanna de Ângelis.


(Mensagem psicofónica obtida pelo médium Divaldo Pereira Franco, ao término da conferência pública no Grupo Espírita André Luiz, no Rio de Janeiro, em 03 de Agosto de 2006.)

Discurso de Flammarion

Discurso pronunciado sobre o túmulo de Allan Kardec -

POR CAMILLE FLAMMARION


Senhores,

Aquiescendo com deferência ao convite simpático dos amigos do pensador laborioso, cujo corpo terrestre jaz agora aos nossos pés, lembro-me de um dia sombrio do mês de Dezembro de 1865. Eu pronunciava, então, supremas palavras de adeus sobre a tumba do fundador da Librairie Académique, do honorável Didier, que foi, como editor, o colaborador convicto de Allan Kardec na publicação das obras fundamentais de uma doutrina que lhe era cara, e que morreu subitamente também, como se o céu quisesse poupar, a esses dois Espíritos íntegros, o embaraço filosófico de sair desta vida por um caminho diferente do caminho comumente recebido. – A mesma reflexão se aplica à morte de nosso antigo colega Jobard, de Bruxelas.
Hoje, a minha tarefa é maior ainda, porque gostaria de poder representar, ao pensamento daqueles que me ouvem, e àqueles milhões de homens que no novo mundo estão ocupados com o problema ainda misterioso dos fenómenos denominados espíritas; – eu gostaria, disse eu, de poder representar-lhes o interesse científico e o futuro filosófico do estudo desses fenómenos (ao qual se entregaram, como ninguém ignora, homens eminentes entre os nossos contemporâneos). Gostaria de lhes fazer entrever quais horizontes desconhecidos ao pensamento humano verá se abrir diante deles, à medida que estenda o seu conhecimento positivo das forças naturais em acção ao nosso redor; mostrar-lhes que tais constatações são o antídoto mais eficaz da lepra do ateísmo, que parece atacar particularmente a nossa época de transição; e testemunhar, enfim, publicamente, aqui, do eminente serviço que o autor de O Livro dos Espíritos prestou à filosofia, chamando a atenção e a discussão sobre fatos que, até então, pertenciam ao domínio mórbido e funesto das superstições religiosas.
Seria, com efeito, um ato importante estabelecer aqui, diante desta tumba eloquente, que o exame metódico dos fenómenos espíritas, chamados erradamente de sobrenaturais, longe de renovar o espírito supersticioso e enfraquecer a energia da razão, ao contrário, afasta os erros e as ilusões da ignorância, e serve melhor ao progresso do que a negação ilegítima daqueles que não querem, de nenhum modo, dar-se ao trabalho de ver.
Mas não é aqui o lugar de abrir uma arena à discussão desrespeitosa. Deixemos somente descer, de nossos pensamentos, sobre a face impassível do homem deitado diante de nós, testemunhos de afeição e sentimentos de pesar, que restam ao redor dele em seu túmulo, como um embalsamamento do coração! E uma vez que sabemos que a sua alma eterna sobrevive a este despojo mortal, como lhe preexistiu; uma vez que sabemos que laços indestrutíveis ligam o nosso mundo visível ao mundo invisível; uma vez que esta alma existe hoje, tão bem como há três dias, e que não é impossível que ela não se encontre actualmente aqui diante de mim; dizemos-lhe que não quisemos ver se desvanecer a sua imagem corpórea e encerrá-la em seu sepulcro, sem honrar unanimemente os seus trabalhos e a sua memória, sem pagar um tributo de reconhecimento à sua encarnação terrestre, tão utilmente e tão dignamente cumprida.
Eu exporei primeiro, num esboço rápido, as linhas principais de sua carreira literária.
Morto com a idade de 65 anos, Allan Kardec consagrara a primeira parte de sua vida a escrever obras clássicas, elementares, destinadas sobretudo ao uso de professores primários e da juventude. Quando, por volta de 1855, as manifestações, em aparência novas, das mesas girantes, das pancadas sem causa ostensiva, dos movimentos insólitos dos objectos e dos móveis, começaram a atrair a atenção pública e determinaram mesmo, nas imaginações aventurosas, uma espécie de febre devida à novidade das experiências, Allan Kardec, estudando ao mesmo tempo o magnetismo e os efeitos estranhos, seguiu com a maior paciência e uma judiciosa clarividência as experiências e as tentativas tão numerosas feitas então em Paris. Ele recolheu e pôs em ordem os resultados obtidos por essa longa observação, e com isso compôs o corpo de doutrina publicado, em 1857, na primeira edição de O Livro dos Espíritos. Sabeis todos que sucesso acolheu essa obra, na França e no estrangeiro.
Chegada hoje à sua 15ª edição, difundiu em todas as classes esse corpo de doutrina elementar, que não era, de nenhum modo, novo em sua essência, uma vez que a escola de Pitágoras, na Grécia, e a dos druidas, em nossa pobre Gália dela, ensinavam os princípios, mas que revestiam uma forma da actualidade pela correspondência com os fenómenos.
Depois dessa primeira obra, apareceram, sucessivamente, O Livro dos Médiuns ou Espiritismo experimental; – O que é o Espiritismo? ou resumo sob a forma de perguntas e de respostas; – O Evangelho Segundo o Espiritismo; – O Céu e o Inferno; – A Génese; – e a morte veio surpreendê-lo no momento em que, em sua actividade infatigável, trabalhava numa obra sobre as relações do magnetismo e do Espiritismo.
Pela Revista Espírita e a Sociedade de Paris, da qual era presidente, se constituíra, de alguma sorte, o centro para onde tudo tendia, o traço de união de todos os experimentadores. Há alguns meses, sentindo o seu fim próximo, preparou as condições de vitalidade desses mesmos estudos depois de sua morte, e estabeleceu a Comissão central que lhe sucede.
Ele levantou rivalidades; fez escola sob uma forma um pouco pessoal; há ainda alguma divisão entre os “espiritualistas” e os “espíritas”. Doravante, Senhores, (tal é pelo menos o voto dos amigos da verdade), deveremos estar todos reunidos por uma solidariedade confraternal, pelos mesmos esforços para a elucidação do problema, pelo desejo geral e impessoal do verdadeiro e do bem.
Objectou-se, Senhores, ao nosso digno amigo, a quem rendemos hoje os derradeiros deveres, se lhe objectou de não ser, de nenhum modo, o que se chama um sábio, de não ter sido, primeiro, físico, naturalista ou astrónomo, e de ter preferido constituir um corpo de doutrina moral antes de haver aplicado a discussão científica à realidade e à natureza dos fenómenos.
Talvez, Senhores, seja preferível que as coisas hajam começado assim. Não é necessário rejeitar sempre o valor do sentimento. Quantos corações foram consolados primeiro por esta crença religiosa! Quantas lágrimas foram secadas! Quantas consciências abertas ao raio da beleza espiritual! Nem todos são felizes neste mundo. Muitas afeições foram dilaceradas! Muitas almas foram entorpecidas pelo cepticismo. Não é, pois, nada senão de haver conduzido ao espiritualismo tantos seres que flutuavam na dúvida e que não amavam mais a vida, nem a física, nem a intelectual?
Allan Kardec fora homem de ciência, e, sem dúvida, não teria podido prestar este primeiro serviço e difundi-lo, assim, ao longe, como um convite a todos os corações.
Mas era o que eu chamarei simplesmente “o bom senso encarnado”. Razão direita e judiciosa, aplicava sem esquecimento, à sua obra permanente, as indicações íntimas do senso comum. Não estava aí uma menor qualidade na ordem das coisas que nos ocupa. Era, pode-se afirmá-lo, a primeira de todas e a mais preciosa, sem a qual a obra não poderia se tornar popular, nem lançar as suas imensas raízes no mundo. A maioria daqueles que se entregaram a esses estudos, lembram-se de ter sido, em sua juventude, ou em certas circunstâncias especiais, testemunhas, eles mesmos, das manifestações inexplicadas; há poucas famílias que não hajam observado, em sua história, testemunhos dessa ordem. O primeiro ponto era aplicar-lhes a razão firme do simples bom senso e examiná-las segundo os princípios do método positivo.
Como organizador desse estudo lento e difícil, ele mesmo previu-o, esse complexo estudo deve entrar agora em seu período científico. Os fenómenos físicos sobre os quais não se insistiu de início, devem se tornar o objecto da crítica experimental, à qual devemos a glória do progresso moderno, e as maravilhas da electricidade e do vapor; esse método deve tomar os fenómenos de ordem ainda misteriosa, aos quais assistimos, dissecá-los, medi-los, e defini-los.
Porque, Senhores, o Espiritismo não é uma religião, mas é uma ciência, ciência da qual conhecemos apenas o a b c. O tempo dos dogmas acabou. A Natureza abarca o Universo, e, o próprio Deus, que se fez outrora à imagem do homem, não pode ser considerado pela metafísica moderna senão como um Espírito na Natureza. O sobrenatural não existe mais. As manifestações obtidas por intermédio dos médiuns, como as do magnetismo e do sonambulismo, são de ordem natural, e devem ser severamente submetidas ao controle da experiência. Não há mais milagres. Assistimos à aurora de uma ciência desconhecida. Quem poderia prever a quais consequências conduzirá, no mundo do pensamento, o estudo positivo dessa psicologia nova?
Doravante, a ciência rege o mundo; e, Senhores, não será estranho a este discurso fúnebre anotar a sua obra actual e as induções novas que ela nos descobre, precisamente do ponto de vista de nossas pesquisas.
Em nenhuma época da história, a ciência desenvolveu, diante do olhar admirado do homem, horizontes tão grandiosos. Sabemos agora que a Terra é um astro, e que nossa vida actual se cumpre no céu. Pela análise da luz, conhecemos os elementos que queimam no Sol e nas estrelas, a milhões, a trilhões de léguas de nosso observatório terrestre. Pelo cálculo, possuímos a história do céu e da Terra em seu passado distante, como em seu futuro, que não existem pelas leis imutáveis. Pela observação, pesamos as terras celestes que gravitam na amplidão. O globo onde estamos se tornou um átomo estelar voando no espaço, em meio das profundezas infinitas, e a nossa própria existência, sobre este globo, tornou-se uma fracção infinitesimal de nossa vida eterna. Mas o que pode, a justo título, nos ferir mais vivamente ainda, é esse espantoso resultado dos trabalhos físicos operados nestes últimos anos: que vivemos em meio de um mundo invisível, agindo sem cessar ao nosso redor. Sim, Senhores, aí está, para nós, uma revelação imensa. Contemplai, por exemplo, a luz derramada nesta hora na atmosfera por esse brilhante Sol, contemplai esse azul tão suave da abóboda celeste, notai esses eflúvios de ar tíbio que vem acariciar os nossos rostos, olhai esses monumentos e esta terra: pois bem! apesar dos nossos grandes olhos abertos, não vemos o que se passa aqui! Sobre cem raios emanados do Sol, só um terço é acessível à nossa visão, seja directamente, seja reflectido por todos os corpos; os dois terços existem e agem ao nosso redor, mas de maneira invisível, embora real. São quentes, sem serem luminosos para nós e são, entretanto, mais activos do que aqueles que nos ferem, porque são eles que atraem as flores para o lado do Sol, que produzem todas as acções químicas (1), e são eles também que elevam, sob uma forma igualmente invisível, o vapor d’água na atmosfera para formar as nuvens; – exercendo assim, incessantemente, ao nosso redor, de maneira oculta e silenciosa, uma força colossal, mecanicamente avaliável ao trabalho de bilhões de cavalos!
(1) A nossa retina é insensível a esses raios; mas outras substâncias os vêem, por exemplo, o iodo e os sais de prata. Fotografou-se o espectro solar químico, que o nosso olho não vê. A placa do fotógrafo não oferece, de resto, jamais, nenhuma imagem visível ao sair da câmara escura, embora ela a possua, uma vez que uma operação a química faz aparecer.
Se os raios caloríficos e os raios químicos que agem constantemente na Natureza são invisíveis para nós, é porque os primeiros não ferem com bastante rapidez a nossa retina, e porque os segundos a ferem muito rápido. O nosso olho não vê as coisas senão entre dois limites, aquém e além dos quais não vê mais. O nosso organismo terrestre pode ser comparado a uma harpa de duas cordas, que são o nervo óptico e o nervo auditivo. Uma certa espécie de movimento coloca em vibração o primeiro e uma outra espécie de movimentos coloca em vibração o segundo: aí está toda a sensação humana, mais restrita aqui do que a de certos seres vivos, de certos insectos, por exemplo, nos quais essas mesmas cordas, da visão e do ouvido, são mais delicadas. Ora, existem, em realidade, na Natureza não dois, mas dez, cem, mil espécies de movimentos. A ciência física nos ensina, portanto, que vivemos assim no meio de um mundo invisível para nós, e que não é impossível que seres (invisíveis igualmente para nós) vivam igualmente sobre a Terra, numa ordem de sensações absolutamente diferentes da nossa, e sem que possamos apreciar a sua presença, a menos que não se manifestem a nós por fatos entrando na nossa ordem de sensações.
Diante de tais verdades, que não fazem ainda senão entreabrir, quanto a negação a priori parece absurda e sem valor! Quando se compara o pouco que sabemos, e a exigüidade da nossa esfera de percepção à quantidade do que existe, não se pode impedir de concluir que não sabemos nada e que tudo nos resta a saber. Com que direito pronunciaremos, pois, a palavra “impossível” diante dos fatos que constatamos sem poder descobrir-lhes a causa única?
A ciência nos abre visões, tão autorizadas quanto as precedentes, sobre os fenômenos da vida e da morte e sobre a força que nos anima. Basta-nos observar a circulação das existências.
Tudo não é senão metamorfose. Transportados em seu curso eterno, os átomos constitutivos da matéria passam, sem cessar, de um corpo a outro, do animal à planta, da planta à atmosfera, da atmosfera ao homem, e nosso próprio corpo, durante a duração inteira de nosso vida, muda incessantemente de substância constitutiva, como a chama não brilha senão pelos elementos renovados sem cessar; e quando a alma se evola, esse mesmo corpo, tantas vezes transportado já durante a vida, devolve definitivamente à Natureza todas as moléculas para não mais retomá-las. Ao dogma inadmissível da ressurreição da carne substituiu-se a alta doutrina da transmigração das almas.
Eis o sol de Abril que irradia nos céus e nos inunda com o seu primeiro orvalho calorescente. Já os campos despertam, já os primeiros botões se entreabrem, já a primavera floresce, o azul celeste sorri, e a ressurreição se opera; e, todavia, esta vida nova não está formada senão pela morte e não recobre senão ruínas! De onde vem a seiva dessas árvores que reverdecem no campo dos mortos? De onde vem essa humidade que nutre as raízes? De onde vêm todos os elementos que vão fazer aparecer, sob as carícias de Maio, as pequenas flores silenciosas e os pássaros cantores? – Da morte?… Senhores…, desses cadáveres sepultados na noite sinistra dos túmulos!… Lei suprema da Natureza, o corpo não é senão um conjunto transitório de partículas que não lhe pertencem de nenhum modo, e que a alma agrupou segundo o seu próprio tipo, para se criarem órgãos pondo-a em relação com o nosso mundo físico. E, ao passo que o nosso corpo se renova assim, peça por peça, pela mudança perpétua das matérias, ao passo que um dia cai, massa inerte, para não mais se levantar, o nosso Espírito, ser pessoal, guardou constantemente a sua identidade indestrutível, reinou soberanamente sobre a matéria da qual estava revestido, estabelecendo assim, por esse fato constante e universal, a sua personalidade independente, a sua essência espiritual não submissa ao império do espaço e do tempo, sua grandeza individual, a sua imortalidade.
Em que consiste o mistério da vida? Por que laços a alma está ligada ao organismo? Por qual solução ela dele se escapa? Sob qual forma, e em quais condições, ela existe depois da morte? – Estão aí, Senhores, tantos problemas que estão longe de serem resolvidos, e cujo conjunto constituirá a ciência psicológica do futuro. Certos homens podem negar a própria existência da alma, como a de Deus, afirmarem que a verdade moral não existe, que não há, de nenhum modo, leis inteligentes na Natureza, e que nós, espiritualistas, somos vítimas de uma imensa ilusão. Outros podem, opondo-se-lhes, declarar que conhecem, por um privilégio especial, a essência da alma humana, a forma do Ser supremo, o estado da vida futura, e nos tratar de ateus, porque a nossa razão se recusa à sua fé. Uns e outros, Senhores, não impedirão que estejamos aqui, em face dos maiores problemas, que não nos interessemos por essas coisas (que estão longe de nós serem estranhas), e que não tenhamos o direito de aplicar o método experimental, da ciência contemporânea, na pesquisa da verdade.
É pelo estudo positivo dos efeitos que se remonta à apreciação das causas. Na ordem dos estudos reunidos sob a denominação genérica de “Espiritismo”, os fatos existem. Mas ninguém conhece o seu modo de produção. Eles existem, tão bem quanto os fenómenos eléctricos, luminosos, caloríficos; mas, Senhores, não conhecemos nem a biologia e nem a fisiologia. O que é o corpo humano? O que é o cérebro? Qual é a acção absoluta da alma? Nós o ignoramos. Ignoramos igualmente a essência da electricidade, a essência da luz; é, pois, sábio observar, sem tomar partido, todos esses fatos, e tentar determinar-lhes as causas, que são, talvez, espécies diversas e mais numerosas do que não o supusemos até aqui.
Que aqueles cuja visão está limitada pelo orgulho, ou pelos preconceitos, não compreendem de nenhum modo esses ansiosos desejos dos nossos pensamentos ávidos de conhecerem; que lancem sobre esse género de estudo, o sarcasmo ou o anátema; elevamos mais alto as nossas contemplações!… Tu foste o primeiro, ó mestre e amigo! tu foste o primeiro que, desde o início da minha carreira astronómica, testemunhou uma viva simpatia pelas minhas deduções relativas à existência de humanidades celestes; porque, tendo na mão o livro da Pluralidade dos mundos habitados, o colocaste em seguida na base do edifício doutrinário que sonhavas. Muito frequentemente, nos entretemos juntos dessa vida celeste tão misteriosa; agora, ó alma! sabes por uma visão directa, em que consiste essa vida espiritual, à qual retornaremos todos, e que nos esquecemos durante esta existência.
Agora retornastes a esse mundo de onde viemos, e recolhes os frutos dos teus estudos terrestres. O teu envoltório dorme aos nossos pés, teu cérebro está aniquilado, os teus olhos estão fechados para não mais se abrirem, a tua palavra não se fará mais ouvir… Sabemos que todos nós chegaremos a esse mesmo último sonho, à mesma inércia, ao mesmo pó. Mas não é nesse envoltório que colocamos a nossa glória e a nossa esperança. O corpo cai, a alma permanece e retorna ao espaço. Encontrar-nos-emos, nesse mundo melhor, e no céu imenso onde se exercerão as nossas faculdades, as mais poderosas, continuaremos os estudos que não tinham sobre a Terra senão um teatro muito estreito para contê-los.
Gostamos mais de saber esta verdade do que crer que tudo jaz inteiramente nesse cadáver, e que a tua alma haja sido destruída pela cessação do funcionamento de um órgão. A imortalidade é a luz da vida, como esse brilhante Sol é a luz da Natureza.


Até breve meu caro Allan Kardec, até breve.

Chico Xavier não é Kardec

Dora Incontri

Não é objectivo deste artigo atacar quem quer que seja, por manifestar opinião contrária à que vou expor. Mas há questões que devem ser tratadas com cuidado para não se tornarem elemento de confusão. A crítica franca, aberta, racional, própria dos postulados espíritas, deve ser praticada, fraternalmente claro, sob pena de imergirmos de novo nas trevas medievais.

Onde não houver questionamento e crítica, onde não houver debate transparente, certamente haverá dominação, ignorância, apatia e graves entraves à autonomia da razão humana e ao desenvolvimento espiritual da humanidade. Como em minhas viagens pelo Brasil afora, sou indagada sobre a polémica em foco, resolvi manifestar-me publicamente para examiná-la com as ferramentas críticas que tomo emprestado de Kardec. Que Chico Xavier seja a reencarnação de Kardec não seria uma hipótese a ser discutida, porque se trata de um absurdo tão sem fundamento que deveria chocar o bom senso de qualquer um (já vi até não-espíritas que conhecem superficialmente a doutrina se mostrarem perplexos diante da ideia). Mas já que se trata de uma afirmação na pena de alguns escritores e médiuns, actuantes no movimento, não podemos deixar de analisá-la.As Afirmativas Sobre Reencarnações
Em primeiro lugar, deveríamos evitar a leviandade que tomou conta de escritores e médiuns espíritas nos últimos anos: afirma-se com o maior descompromisso e sem nenhuma demonstração de evidência que fulano é reencarnação de sicrano e geralmente são pessoas famosas, já desencarnadas, ou personagens históricas - que não podem contradizer tais afirmações. É perfeitamente legítimo o estudo de casos de reencarnação, mas eles precisam ser fruto de pesquisa, de preferência de pessoas próximas e, se alguma hipótese for apresentada de personalidades de projecção, deve-se fazê-lo com todo o cuidado, com argumentos bem fundamentados e ainda assim não passará de uma hipótese a ser examinada e comentada por outros pesquisadores. Um exemplo positivo de um estudo com critério é Eu sou Camille Desmoulins, de Luciano dos Anjos e Hermínio Miranda. São centenas de páginas de pesquisa, em que a personalidade em questão participou, fez regressão de memória, e o autor realizou exaustivas buscas de documentos históricos, etc.
Outro estudo sério é o de Hernâni Guimarães de Andrade, com personagens desconhecidas - crianças com lembranças de outras vidas - em seu livro Reencarnação no Brasil. (De passagem, fica aqui a nossa carinhosa vibração ao Hernâni, desencarnado há alguns dias). Isso apenas para citar autores brasileiros. No plano internacional, há, por exemplo, a excelente pesquisa feita por Ian Stevenson. Outra forma de estudo de personalidade através de reencarnações foi a realizada pela saudosa e sensatíssima médium Yvonne A. Pereira, no caso de suas próprias vidas passadas. Não houve aí a identificação das personalidades históricas ou a comprovação dessa identidade, mas uma regressão de memória, promovida pelos Espíritos superiores, para mostrar a trajectória evolutiva de um espírito feminino. Trata-se assim de um estudo psicológico através dos tempos, sem compromisso com a evidência histórica. Uma possibilidade interessante e legítima. O que não pode acontecer - e acontece com bastante frequência - é simplesmente alguém sair anunciando que fulano foi tal pessoa e aceitar-se isso como fato consumado. Aí exorbita-se do estudo de caso, da pesquisa científica, para se tornar mediunismo inconsequente e dogmatismo sem fundamento.

O pior é quando tais afirmativas contrariam as evidências mais óbvias e a coerência mais superficial entre uma personalidade e outra, que se supõe ser a mesma. Ou seja, para falar de reencarnação é preciso usar os critérios próprios do espiritismo: pesquisa científica, coerência racional, podendo-se valer igualmente da intuição mediúnica. Mas se essa intuição vier desacompanhada dos outros aspectos, pode se tornar misticismo.

A Identidade do Eu

Um dos pontos fundamentais demonstrados pelo espiritismo, que, aliás, se insere plenamente na tradição socrático-platónica-cristã, é a ideia de uma identidade individual, permanente, que está em progresso e mutação, mas guarda um eu reconhecível, com características próprias de personalidade, com memórias e potencialidades particulares. Até os Espíritos puros, que atingiram a perfeição, cuja personalidade nos é difícil examinar, mantêm, segundo a doutrina espírita, ainda e sempre sua individualidade. Nos estudos criteriosos de reencarnação, essa verdade salta aos olhos: ninguém poderia negar que Luciano dos Anjos é Camille Desmoulins. As duas individualidades são parecidíssimas. Até nos traços físicos. E isso não é tão incomum. Ian Stevenson faz um estudo intrigante dos sinais de nascença. Às vezes, a ligação com a encarnação anterior é tão vívida, que a criança nasce até com marcas do tipo de morte que teve ou algum trauma sofrido. Assim como na comunicação de um Espírito por um médium, para sua identificação devem entrar uma série de factores, evidências, muitas inesperadas, aparentemente fortuitas, mas que no seu conjunto conferem uma forte sensação de que a personalidade comunicante é aquela: na reencarnação, dá-se o mesmo. Apenas um quadro de muitos detalhes, coincidências significativas, semelhanças, nos dá alguma convicção de que tal pessoa esteja ali, reencarnada. Se nos limitássemos a tratar de casos de reencarnação que obedecessem aos critérios mencionados, evitaríamos lançar a ideia no ridículo.

O Caso Chico-Kardec

Poderia escrever muitas páginas com todos os pontos de total dissemelhança entre a personalidade de Kardec e de Chico. Em primeiro lugar, estabeleçamos alguns parênteses. O que sabemos de mais sólido sobre outras existências de Kardec - o resto são inoportunas especulações - são as duas que ele aceitava: a de druida e a de Jan Huss (esta, segundo informação que Canuto de Abreu teria visto em seus manuscritos, antes da Segunda Guerra). Mas, nos três momentos conhecidos, dá para notar a coerência de uma personalidade corajosa, viril, segura, austera, de mente límpida e clara (o estilo de Jan Huss é o mesmo de Kardec, simples e cristalino, preciso e firme) e sempre dedicada à educação. Os druidas eram sacerdotes-educadores, Huss foi reitor da Universidade de Praga e Rivail/Kardec foi educador durante mais de trinta anos na França. Quanto ao seu estilo, ele mesmo adverte que não tinha vocação poética, não apreciava metáforas, mas queria atingir o máximo de didactismo e simplicidade. Para isso, tanto Huss quanto Kardec escreveram gramáticas. Huss desafiou a Igreja Católica e morreu cantando na fogueira em 1415, depois de ter escrito cartas belíssimas da prisão, mostrando sua firmeza e serenidade. Kardec desafiou a Ciência oficial, a religião tradicional e todo sistema académico estabelecido, fundando um novo paradigma para o conhecimento humano, numa síntese genial. Quando estudamos sua vida e sua personalidade, vemo-lo mover-se com absoluta segurança de si, com total equilíbrio, desde os primeiros textos pedagógicos aos 24 anos, até a redacção da última Revista Espírita, que deixou pronta antes de morrer. Os próprios Espíritos Superiores o chamam de mestre. O Espírito da Verdade o trata de forma amorosa, aconselhando-o sempre com respeito ao seu livre-arbítrio, à sua capacidade intelectual e à sua estatura moral. Kardec se ocultou tanto atrás da obra, pela sua extrema modéstia e reserva (que não era a humildade mística de Chico, que se autodenominava verme, besta, pulga, cisco ...), que os próprios adeptos do espiritismo não sabem aquilatar-lhe a grandeza. Agora, analisemos a pessoa Chico Xavier, que conheci desde a minha primeira infância. Trata-se de uma personalidade doce, amorosa, bastante feminina, emocional, mística, com forte vocação literária e poética (ao contrário de Kardec) mas uma personalidade fraca. Basta ver sua relação com Emmanuel. Seu guia espiritual, aliás forte e altivo, sempre manteve com Chico uma postura disciplinar, rígida, admoestando-o se o via fraquejar. Vêem-se diversas situações desse tipo, na leitura do livro As vidas de Chico Xavier, de Marcel Souto Maior, que considero a biografia mais confiável e mais bem escrita, porque feita por um profissional do jornalismo, entre tantas que mais parecem relatos de vida de santo da Idade Média, pela linguagem melada, pela louvação exagerada e pelo cunho miraculoso. Basta lembrar de Chico, gritando em pânico, porque o avião em que estava ameaçava cair e Emmanuel, diante dele, dizendo: "Dá testemunho da tua fé, da tua confiança na imortalidade! (...) morra com educação!" . Este o Espírito que enfrentou a fogueira, cantando, sem retirar uma palavra do que dissera? A resposta, o próprio Emmanuel já deu ao Chico certa vez: "Meu filho, você é planta muito fraca para suportar a força das ventanias. Tem ainda muito o que lutar para um dia merecer ser preso e morrer pelo Cristo." Noutras ocasiões, os próprios encarnados tiveram de adverti-lo severamente, como no caso da adulteração do Evangelho segundo o Espiritismo, na década de 70, que levou Herculano Pires a escrever um livro, Na Hora do Testemunho, no qual quase obrigou Chico à retratação pública, por ter apoiado indirectamente a edição adulterada.Chico é, pois, um Espírito bom, em processo de resgate e regeneração, ainda enfrentando conflitos internos e desequilíbrios e tendo necessidade do freio curto de Emmanuel para se manter na linha das próprias obrigações. Nunca, diga-se, ele mesmo se viu ou se assumiu de outra forma. Kardec, ao contrário, já 600 anos atrás não revela conflito, não se mostra abalado por nada. Seu companheiro de Reforma, Jerónimo de Praga, chegou a abjurar, com medo da fogueira. Arrependeu-se depois e enfrentou a morte com galhardia. Mas em Jan Huss não há hesitação ou fraqueza, apenas a altivez do Espírito que já atingiu a estatura de um missionário. Da mesma forma Kardec. Nem sabemos o quanto ele sofreu e foi perseguido, pois não se queixava. Apenas nas entrelinhas de Obras Póstumas, quando se refere por exemplo à Sociedade Espírita de Paris como um ninho de intrigas, é que de longe vislumbramos o que deve ter passado. Mas nunca o vemos abatido ou choroso. Quanto à linguagem de Chico é também oposta à de Kardec. Trata-se de uma linguagem literária, ornamentada, própria do médium - pois sabemos que o médium influencia as comunicações. Se Chico não tinha cabedal literário nesta vida, é certo que o trouxe de outras, para se tornar o intérprete de tantos literatos do Além. Se Kardec tivesse escrito, por exemplo, Mecanismos da Mediunidade, seria certamente numa linguagem bem mais objectiva, menos literária e mais digerível. Vou mais longe. Sem ofensa ou menosprezo pelo grande Espírito de Emmanuel, ele próprio fica bem abaixo da estatura espiritual de Kardec. Basta lembrar que, enquanto Jan Huss estava morrendo na fogueira por criticar os abusos da Igreja e duzentos anos depois, seu discípulo Comenius estava inaugurando a Pedagogia moderna, em oposição à educação jesuítica; Emmanuel - leia-se Manuel da Nóbrega - estava ainda a pleno serviço da Igreja, imerso no projecto de catequese jesuítica. Tanto ele quanto Anchieta talvez tivessem suas críticas ao movimento de que participavam e sem dúvida deram contribuição meritória ao início da educação brasileira. Mas estavam ainda com as correntes mais conservadoras da história, ao passo que Huss (depois Kardec) inaugurara já novas relações entre Deus e o homem, sendo retomado na Reforma de Lutero e aprofundado na proposta educacional de Comenius, que estava a anos luz adiante da proposta jesuíta. Com isso, não estou diminuindo a importância nem da personalidade histórica de Manuel da Nóbrega, nem do Espírito Emmanuel, entidade que respeito e amo muito, nem menosprezando a obra que fez por intermédio do Chico. Mas é preciso reconhecer a superioridade de Kardec, coisa que tanto Emmanuel, quanto Chico, sempre reconheceram. Certo dia disse Emmanuel a Chico - e esta é uma Passagem conhecida de todos - que se ele, Emmanuel deixasse Jesus ou Kardec, o pupilo deveria deixá-lo. Ora, o guia se submetia a Kardec, como Kardec poderia ser seu tutelado?

O Que Está Por Trás Dessa Ideia

Tudo isso poderia não passar de uma discussão vazia, simples questão de opinião, sem maiores consequências. Mas vejo graves problemas nessa polémica e só por isso meti-me a falar no assunto. Afirmar que Chico Xavier é reencarnação de Kardec é submeter Kardec ao Chico ... logicamente, pela lei da evolução, o mais recente é mais evoluído e portanto vai mais adiante do que o anterior. O que se esconde por trás dessa ideia subliminar, implícita na tese de um ser reencarnação do outro? É que abandonamos, ou pelo menos desvalorizamos, os critérios de racionalidade, objectividade, cientificidade, além dos aspectos pedagógicos e da linguagem clara e democrática de Kardec, com todo seu pensamento de vanguarda - para valorizarmos mais a linguagem melíflua (muitas vezes piegas) de Chico, o espiritismo visto predominantemente como religião e os aspectos conservadores tanto do pensamento do médium, quanto de Emmanuel. Querem ver um exemplo? Kardec, em pleno século XIX, aclamava todas as conquistas da emancipação feminina. Em artigos na Revista Espírita, apoia a reivindicação do voto feminino, parabeniza as primeiras mulheres a se formarem médicas ... exalta a participação intelectual da mulher. Emmanuel não deixa de mostrar, em diversas passagens de seus livros, ranços de machismo lusitano, romano e da igreja, sempre colocando a mulher ideal como a mais submissa e calada possível. A tese de que Chico seria Kardec desqualifica Kardec e exalta indevidamente Chico Xavier, colocando-o num pedestal de idolatria que nenhum ser humano deve ocupar. E isso está bem situado nos rumos que o movimento espírita brasileiro tem tomado: trata-se de um movimento que exalta personalidades mediúnicas (quando Kardec mal nos deixa conhecer o nome dos médiuns que trabalhavam com ele, porque não se constrói liderança em mediunidade, como os antigos pajés da tribo ou as passadas pitonisas da Antiguidade), preferindo o emocionalismo à racionalidade, o igrejismo ao debate filosófico e científico. É por isso que meu trabalho tem sido no sentido de resgatar Kardec e seus antecessores directos: Comenius, Rousseau, Pestalozzi - todas personalidades de vanguarda, com pensamento social avançado, com projectos libertários de educação. É desse caldo cultural que nasceu o Espiritismo. Transplantado para o Brasil, ganhou as cores místicas da cultura católica, de herança jesuítica, que formou a nação brasileira. É verdade que apenas um povo com o nosso coração e com a criatividade e a intuição mediúnicas como as nossas poderia acolher o espiritismo. É verdade que Emmanuel continuou a sua obra de primeiro educador do Brasil e fez bem a sua parte, por intermédio do Chico, que também fez a sua. Mas não é por isso que devemos colocar os carros na frente dos bois e perder a raiz pedagógica, racional e consistente que nos identifica. E essa raiz é representada por Kardec, que por todas as razões vistas e muitas outras que não é possível comentar aqui, não reencarnou como Chico, não reencarnou ainda, porque teríamos de reconhecê-lo por sua mente poderosa, por sua liderança equilibrada e segura e por trazer uma contribuição muito melhor que a de Chico e mesmo melhor que a do próprio Kardec, pois senão não haveria razão para reencarnar-se.




Texto extraído do folheto distribuído pela editora Publicações LACHÂTRE, por ocasião da XI Bienal do Livro, realizada no Rio de Janeiro.

Antevisão de Kardec

Allan Kardec afirmou que a descoberta do mundo dos espíritos era mais importante do que a descoberta das Américas, pois, nem todos viajariam para o Novo Mundo, em contrapartida todos viajarão para o mundo espírita, porque a morte é inerente ao ser humano.

Ao assistir pela primeira vez fenómenos mediúnicos na residência da Sra. Planamaison, ele analisou demoradamente, e concluiu que uma nova era começava para a humanidade. Era a antevisão de alguém com um profundo bom senso.

Os fenómenos assistidos por ele, eram bizarros, estranhos. Eram mesas que giravam, dançavam, batiam com um pé no chão, e respondiam perguntas, adivinhavam pensamentos.

Pouco depois, ele vê fenómenos de uma ordem mais elevada, a psicografia, embora indirecta, ou seja, com o lápis atravessando o fundo de uma cestinha de vime, equilibrada em suas bordas pelas mãos de duas meninas, Julie e Caroline Baudin.

Daí para frente a mediunidade entrava numa nova fase, deixando definitivamente os arraiais da superstição, do maravilhoso e do sobrenatural. Uma das primeiras e importantes descobertas de Allan Kardec, foi constatar que o mundo espiritual é habitado por espíritos de todas as categorias, que viveram como homens na Terra, e o seu saber é limitado ao seu adiantamento.

Todos eles podem se comunicar com os homens, portanto, é preciso estar prevenido contra as mentiras, os embustes, e as maldades, assim também, com os pseudo-sábios. Kardec não poupou esforços para advertir, sobre essas peculiaridades, a todos aqueles que lidam com espíritos.

Ele fez mais do que isso: como os espíritos podem influenciar os homens através do pensamento, Kardec advertiu para que cuidássemos da qualidade dos nossos pensamentos habituais, para que não houvesse a ligação com mentes maldosas, depravadas ou ociosas.

Para isso ele construiu de forma didáctica, a Escala Espírita, esclarecendo o tipo de influências dos espíritos, de acordo com a sua categoria. Aprendemos com Kardec que os espíritos estão por toda a parte.

Acotovelam-nos constantemente, pois estão em nossas casas, nas ruas, nas calçadas, nas lojas, nas casas de diversões, não raro, em conluio com as mentes humanas, ou em agrupamentos espirituais no espaço, onde criam organizações, convivências, sociedades, de acordo com os objectivos e a escala moral que ocupam.

Tudo isso pode parecer estranho para quem esperava encontrar, depois da morte, o nada, ou moradas fixas representadas pelo céu, para os bons, e o infernos para os pecadores. Nas descobertas constantes, motivadas pela investigação, Kardec descobriu que existem espíritos vivendo entre nós, com a ilusão de que ainda estão revestidos de corpos físicos. Ilusão que dura, as vezes, muito tempo.

Como é fácil de verificar, existe uma certa complexidade doutrinária que exige algum preparo para lidar com os espíritos. Não se trata de exigência de intelectualidade, mas sim de compreensão, entendimento dos postulados espíritas. Para conseguir isso é preciso estudar, e a base desse estudo é a obra Kardequiana.

Amílcar Del Chiaro Filho

Fonte: Panorama Espírita (http://www.panoramaespirita.com.br)

Discurso de Allan Kardec

Sessão Anual Comemorativa dos Mortos (Sociedade de Paris, 1.º de Novembro de 1868)

Discurso de Abertura do Sr. Allan Kardec

Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, aí estarei com eles" - Mateus XVIII, 20.

Caros irmãos e irmãs espíritas.

Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para dar aos nossos irmãos, que deixaram a Terra, um testemunho particular de simpatia; para continuar as relações de afeição e de fraternidade que existiam entre eles e nós em vida e para chamar sobre eles a bondade do Todo-Poderoso. Mas, porque nos reunirmos? Não podemos fazer, cada um em particular, o que nos propomos fazer em comum? Qual a utilidade que pode haver em se reunir assim num dia determinado? Jesus indica-nos pelas palavras citadas em epígrafe. Esta utilidade está no resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas reunidas com o mesmo objectivo.

Mas compreende-se bem todo o alcance da expressão: "Comunhão de pensamentos?" Seguramente, até este dia, poucas pessoas dela tinham feito uma ideia completa. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas, pelas leis que nos revela, vem ainda explicar-nos a causa, os efeitos e o poder desta situação do espírito.

Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento seja uma força; mas é uma força puramente moral e abstracta? Não; do contrário não explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, a comunhão do pensamento. Para o compreender, é preciso conhecer as propriedades e a acção dos elementos que constituem a nossa essência espiritual e é o Espiritismo que nos ensina isso.

O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria: sem o pensamento, o espírito não seria espírito. A vontade não é atributo especial do espírito: é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento tornado força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas se ele tem a força de agir sobre os órgãos materiais, como não deve ser maior esta força sobre os elementos fluídicos que nos cercam! O pensamento age sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos trazem-nos o pensamento, como o ar traz-nos o som. Pode, pois, dizer-se com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundir, como há no ar ondas e raios sonoros.

Uma assembleia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos em que cada um produz a sua nota. Resulta daí uma porção de correntes e de eflúvios, cada um dos quais recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro de música cada um recebe a impressão dos sons, pelo sentido da audição.

Mas, assim como há raios sonoros harmónicos ou discordantes, também há pensamentos harmónicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão será agradável; se for discordante, a impressão será penosa. Ora, para isso não é preciso que o pensamento seja formulado em palavras; a radiação fluídica não existe menos, seja ou não expressa; se todas forem benevolentes, todos os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e sentir-se-ão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzem o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.

Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí como que reina uma atmosfera moral salubre, onde se respira à vontade; daí se sai

reconfortado, porque se ficou impregnado de eflúvios fluídicos salutares. Assim se explica, também, a ansiedade, o mal-estar indefinível que se sente num meio antipático, onde pensamentos malévolos provocam, por assim dizer, correntes fluídicas malsãs.

A comunhão de pensamentos produz, assim, uma espécie de efeito físico, que reage sobre o moral; é o que só o Espiritismo poderia dar a compreender. O homem sente isso instintivamente, desde que procure as reuniões onde sabe que encontra essa comunhão. Nas reuniões homogéneas e simpáticas adquire novas forças morais; poder-se-ia dizer que aí recupera as perdas fluídicas que tem diariamente, pela radiação do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.

A esses efeitos da comunhão dos pensamentos junta-se um outro que é a sua consequência natural, e que importa não perder de vista: é o poder que adquire o pensamento ou a vontade, pelo conjunto de pensamentos ou vontades reunidas. Sendo a vontade uma força activa, esta força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número de braços.

Aceite este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos, haja, numa reunião onde reine uma perfeita comunhão de pensamentos, uma força atractiva ou repulsiva, que nem sempre possui o indivíduo isolado. Se, até agora, as reuniões muito numerosas são menos favoráveis, é pela dificuldade de obter uma homogeneidade perfeita de pensamentos, consequente da imperfeição da natureza humana na terra.

Quanto mais numerosas as reuniões, mais aí se misturam elementos heterogéneos, que paralisam a acção dos bons elementos, e que são como grãos de areia numa engrenagem. Assim não acontece nos mundos mais adiantados, e tal estado de coisas mudará na Terra, à medida que os homens se tornarem melhores.

Para os espíritas a comunhão de pensamentos tem um resultado ainda mais especial. Vimos o efeito dessa comunhão, homem a homem; o Espiritismo prova-nos que não é menor dos homens para os Espíritos, e reciprocamente. Com efeito, se o pensamento colectivo adquire força pelo número, um conjunto de pensamentos idênticos, tendo o bem por objectivo, terá mais força para neutralizar a acção dos maus Espíritos; assim, vemos que a táctica destes últimos é impelir para a divisão e para o isolamento. Sozinho, o homem pode sucumbir, ao passo que se sua vontade for corroborada por outras vontades, poderá resistir, segundo o axioma: "A união faz a força", axioma verdadeiro tanto no moral quanto no físico.

Por outro lado, se a acção dos Espíritos malévolos pode ser paralisada por um pensamento comum, é evidente que a dos bons Espíritos será secundada. A sua influência salutar não encontrará obstáculos; não sendo os seus eflúvios fluídicos detidos por correntes contrárias, espalhar-se-ão sobre todos os assistentes, precisamente porque todos os terão atraído pelo pensamento, não cada um em proveito pessoal, mas em proveito de todos, conforme a lei da caridade. Descerão sobre eles em línguas de fogo, para nos servir de uma admirável imagem do Evangelho.

Assim, pela comunhão de pensamentos, os homens assistem-se entre si e, ao mesmo tempo, assistem os Espíritos e são por estes assistidos. As relações entre o mundo visível e o mundo invisível não são mais individuais, são colectivas, e, por isso mesmo, mais poderosas para o proveito das massas, como para o dos indivíduos. Numa palavra, estabelece a solidariedade, que é a base da fraternidade. Ninguém trabalha para si só, mas para todos, e trabalhando por todos cada um aí encontra a sua parte. É o que não compreende o egoísmo.

Graças ao Espiritismo, compreendemos então, o poder e os efeitos do pensamento colectivo; explicamos melhor o sentimento de bem-estar que se experimenta num meio

homogéneo e simpático; mas sabemos, igualmente, que acontece o mesmo com os Espíritos, porque eles também recebem os eflúvios de todos os pensamentos benevolentes que para eles se elevam, como uma nuvem de perfume. Os que são felizes experimentam uma maior alegria por esse concerto harmonioso; os que sofrem sentem um maior alívio.

Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; é aí, com efeito, que esta deve e pode exercer toda a sua força, porque o objectivo deve ser o desprendimento do pensamento das garras da matéria. Infelizmente, na sua maioria, afastaram-se desse principio, à medida que faziam da religião uma questão de forma. Disso resultou que cada um, fazendo consistir o seu dever na realização da forma, julga-se quite com Deus e com os homens quando pratica uma fórmula. Disso resulta ainda que "cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por sua própria conta, e o mais das vezes sem nenhum sentimento de confraternização em relação aos outros assistentes; está isolado no meio da multidão e não pensa no céu senão para si mesmo".

Certamente não era assim que o entendia Jesus quando disse: "Quando estiverdes diversos reunidos em meu nome, estarei no meio de vós". Reunidos em meu nome quer dizer com um pensamento comum; mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, a sua doutrina. Ora, qual é o principio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e obras. Os egoístas e os orgulhosos mentem quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus os desautoriza como seus discípulos.

Feridas por estes abusos e por estes desvios, há criaturas que negam a utilidade das assembleias religiosas e, por conseguinte, dos edifícios consagrados a tais assembleias. No seu radicalismo, pensam que melhor seria construir hospícios do que templos, uma vez que o templo de Deus está em toda a parte, que pode ser adorado em toda a parte, que cada um pode orar em casa e a qualquer hora, ao passo que os pobres, os doentes e os enfermos necessitam de lugares de refúgio.

Mas pelo facto de se cometerem abusos, por se afastarem do caminho recto, segue-se que não existe o caminho recto e que tudo aquilo de que se abusa seja mau? Falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos, que deve ser a essência das assembleias religiosas; é ignorar as causas que a provocam. Que os materialistas professem semelhantes ideias, concebe-se; porque, para eles, em todas as coisas fazem abstracção da vida espiritual; mas da parte dos espiritualistas e, melhor ainda, dos espíritas seria um contra-senso. "O isolamento religioso, como o isolamento social, conduz ao egoísmo".

Que alguns homens sejam bastante fortes por si mesmos, muitos largamente dotados pelo coração, para que a sua fé e a sua caridade não necessitem ser reaquecidas, num foco comum, é possível; mas assim não se dá com as massas, à qual é preciso um estimulante, sem o qual elas poderiam deixar-se ganhar pela indiferença. Além disso, qual o homem que possa dizer-se bastante esclarecido para não ter nada a aprender no tocante aos interesses futuros? É bastante perfeito para dispensar conselhos na vida presente? É sempre capaz de instruir-se por si mesmo? Não; à maioria são necessários ensinamentos directos em matéria de religião e de moral, como em matéria de ciência. Sem contradita, esse ensinamento pode ser dado em toda a parte, sob a abóbada do céu, como sob a de um templo; mas porque não teriam os homens lugares especiais para os negócios do céu, como o têm para os negócios da Terra? Porque não teriam assembleias religiosas, como têm assembleias políticas, científicas e industriais? Aqui está um jogo onde se ganha sempre, sem que ninguém perca. Isto não impede as fundações em proveito dos infelizes; mas dizemos a mais que "quando os homens compreenderem melhor os seus interesses do céu, haverá menos gente nos hospícios".

Se as assembleias religiosas - falamos, em geral, sem alusão a qualquer culto – muitas vezes se afastaram bastante do objectivo primitivo principal, que é a comunhão fraterna do pensamento; se o ensino que aí é dado nem sempre seguiu o movimento progressivo da humanidade, é que os homens não realizam todos os progressos ao mesmo tempo; o que não fazem num período, fazem-no noutro; à medida que se esclarecem, vêem as lacunas que existem nas suas instituições e as preenchem; compreendem que o que era bom numa época, em relação ao grau de civilização, torna-se insuficiente num estado mais adiantado e restabelecem o nível. Sabemos que o Espiritismo é a grande alavanca do progresso em todas as coisas; marca uma era de renovação. Saibamos, pois, esperar, e não peçamos a uma época mais do que ela pode dar. Como as plantas, é preciso que as ideias amadureçam para serem colhidos os frutos. Além disso, saibamos fazer as concessões necessárias nas épocas de transição, porque nada, na natureza, se opera de maneira brusca e instantânea.

Dissemos que o verdadeiro objectivo das assembleias religiosas deve ser a "comunhão de pensamentos"; é que, com efeito, a palavra "religião" quer dizer "laço". Uma religião, em sua acepção nata e verdadeira, é um laço que "religa" os homens numa comunidade de sentimentos, de principio e de crenças. Consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É neste sentido que se diz: "a religião política"; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra "religião" não é sinónimo de "opinião"; implica uma ideia particular; a "de fé conscienciosa"; eis porque se diz também: "a fé política". Ora, os homens podem envolver-se, por interesse num partido, sem ter fé nesse partido e a prova é que o deixam sem quaisquer escrúpulos, quando encontram o seu interesse algures, ao passo que aquele que o abraça por convicção é inabalável; persiste ao preço dos maiores sacrifícios e é a abnegação dos interesses pessoais que é a verdadeira pedra de toque da fé sincera. Contudo, se a renúncia a uma opinião, motivada pelo interesse, é um acto de desprezível covardia, é, ao contrário, respeitável, quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é, então, um ato de abnegação e de razão. Há mais coragem e grandeza em reconhecer abertamente que se enganou, do que persistir, por amor-próprio, no que se sabe ser falso e para não se dar um desmentido a si próprio, o que acusa mais teimosia do que firmeza, mais orgulho do que razão, e mais fraqueza do que força. E mais ainda: é hipocrisia, porque se quer parecer o que não se é; além disso é uma acção má, porque é encorajar o erro por seu próprio exemplo.

O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objectivo, é, pois, um laço essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações e não somente o facto de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que une, como consequência da comunidade de vistas e de sentimentos, "a fraternidade e a solidariedade", a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.

Se assim é, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores. No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos glorificamos por

isto, porque é a doutrina que funda os elos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as mesmas leis da natureza.

Porque, então, declaramos que o Espiritismo não é uma religião? Porque não há uma palavra para exprimir duas ideias diferentes, e porque, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; desperta exclusivamente uma ideia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí senão uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com o seu cortejo de hierarquias, de cerimónias e de privilégios; não o separaria das ideias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes se levantou a opinião pública.

Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual do vocábulo, não podia nem devia enfeitar-se com um titulo sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis porque simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral. As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupa. Pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que por isto as tomem por "assembleias religiosas". Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuance é perfeitamente clara e a aparente confusão é devida à falta de um vocábulo para cada ideia. Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contacto material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se devem confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para todos, ou, por outras palavras: o amor do próximo, que compreende os vivos e os mortos, desde que sabemos que os mortos sempre fazem parte da humanidade.

A caridade é a alma do Espiritismo: ela resume todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com os seus semelhantes; eis porque se pode dizer que não há verdadeiro espírita sem caridade.

Mas a caridade é ainda uma dessas palavras de sentido múltiplo, cujo inteiro alcance deve ser bem compreendido. E se os Espíritos não cessam de a pregar e a definir, é que, provavelmente, reconhecem que isto ainda é necessário. O campo da caridade é muito vasto: compreende duas grandes divisões que, na falta de termos especiais, podem designar-se pelas expressões: "Caridade beneficente e Caridade benevolente". Compreende-se facilmente a primeira, que é naturalmente proporcional aos recursos materiais de que se dispõe; mas a segunda está ao alcance de toda gente, do mais pobre ao mais rico. Se a beneficência é forçosamente limitada, nada além da vontade pode estabelecer limites à benevolência. Que é preciso, então, para praticar a caridade benevolente? Amar ao próximo como a si mesmo: ora, para se amar ao próximo tanto quanto a si mesmo, amar-se-ão muito; agir-se-á para com outrem como se quereria que os outros agissem para connosco; não se quereria fazer mal a ninguém, porque não quereríamos que tal nos fizessem. Amar ao próximo é, pois, abjurar qualquer sentimento de ódio, de animosidade, de rancor, de inveja, de ciúme, de vingança, numa palavra, qualquer desejo e pensamento de prejudicar; é perdoar os inimigos e retribuir o mal com o bem; ser indulgente para com as imperfeições dos seus semelhantes e não procurar a palha no olho do vizinho, quando não se vê a trave no seu; é cobrir ou desculpar as faltas dos outros, em vez de se alegrar em as pôr em evidência por espírito de aviltamento; é, ainda, não se fazer valer à custa dos outros; não procurar esmagar a pessoa sob o peso da sua superioridade; não desprezar ninguém por orgulho. Eis a verdadeira caridade benevolente, a caridade prática, sem a qual a caridade é palavra vã; é a caridade do verdadeiro Espírita, como do verdadeiro cristão; aquela sem a qual aquele que diz: "Fora da Caridade não há salvação", pronuncia a sua própria condenação, tanto neste quanto no outro mundo.

Quanta coisa haveria a dizer a tal respeito? Que belas instruções nos dão os Espíritos incessantemente! Sem o receio de alongar-me e de abusar da vossa paciência, senhores, seria fácil demonstrar que, em se colocando no ponto de vista do interesse pessoal, egoísta, se se quiser, porque nem todos os homens estão maduros para uma completa abnegação, para fazer o bem unicamente por amor do bem, seria fácil demonstrar que têm tudo a ganhar em agir deste modo e tudo a perder agindo diversamente, mesmo nas suas relações sociais; depois, o bem atrai o bem e a protecção dos bons Espíritos; o mal atrai o mal e abre a porta à malevolência dos maus. Mais cedo ou mais tarde o orgulhoso será castigado pela humilhação, o ambicioso pelas decepções, o egoísta pela ruína das suas esperanças, o hipócrita pela vergonha de ser desmascarado; aquele que abandona os bons Espíritos por estes é abandonado e, de queda em queda, vê-se, por fim, no fundo do abismo, ao passo que os bons Espíritos erguem e amparam aquele que, nas maiores provações, não cessa de se confiar à Providência e jamais se desvia do caminho recto; aquele, enfim, cujos secretos sentimentos não dissimulam nenhum pensamento oculto de vaidade ou de interesse pessoal.

Então, de um lado, ganho assegurado; do outro, perda certa; cada um, em virtude do livre arbítrio, pode escolher a oportunidade que quer correr, mas não poderá queixar-se senão de si mesmo pelas consequências da sua escolha.

Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e na sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento moral e intelectual; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na equitável remuneração do bem e do mal, conforme o princípio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem excepções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na duração da expiação limitada pela imperfeição; no livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade que liga o mundo visível ao invisível; na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterna; aceitar corajosamente as provações, em vista do futuro mais invejável que o presente; praticar a caridade por pensamentos, palavras e obras na mais larga acepção da palavra; esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando alguma imperfeição da sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre exame e da razão e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da ciência a revelação das leis da natureza, que são as leis de Deus; eis o "Credo, a religião do Espiritismo", religião que se pode conciliar com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal. Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz e se pouparão males inumeráveis, que nascem da discórdia, por sua vez filha do orgulho, do egoísmo, da ambição, do ciúme e de todas as imperfeições da humanidade.

O Espiritismo dá aos homens tudo o que é preciso para a felicidade aqui na terra, porque lhes ensina a se contentarem com o que têm. Que os espíritas sejam, pois, os primeiros a aproveitar os benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia, que resplenderá nas gerações futuras.

Os Espíritos que nos rodeiam aqui são inumeráveis, atraídos pelo objectivo que nos propusemos ao nos reunirmos, a fim de dar aos nossos pensamentos a força que nasce da união. Demos aos que nos são caros uma boa lembrança e o penhor da nossa afeição, encorajamento e consolações aos que estão necessitados. Façamos de modo que cada um recolha a sua parte dos sentimentos da caridade benevolente, de que estivermos animados, e que esta reunião dê os frutos que todos têm o direito de esperar.


(Allan Kardec)